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Nós, os Nascidos na Igreja

“Talvez nós, os nascidos na igreja, tenhamos de aprender a desacostumar do cristianismo. Preciso diariamente com coragem e convicção escolher permanecer nessa fé, não porque meus pais me ensinaram, mas porque cresci e crescendo eu a tornei minha fé, minha experiência pessoal de vida, sou alma e corpo de um legado que outros me deixaram”

Somos os que aceitaram a Cristo com o coração sem muitas marcas da vida, ajoelhados com a mãe após um culto doméstico, ou na classe de Escola bíblica com uma tia. As pequenas mãos juntas, a oração e uma vontade absurda desse que nos falaram ser  Jesus.

Somos os que desde a infância, conhecem o ambiente eclesiástico, os que levantaram cedo  no domingo reclamando em ter que  ir à igreja por anos, mas que não viam a hora de dividir as classes da EBD.  Somos os que conheceram os flanelógrafos, os personagens das mais diversas histórias bíblicas, que cantaram os corinhos com cartazes em cartolina caprichados das nossas professoras, que às vezes era nossa própria mãe. Os que frequentaram escola bíblica de férias e hoje vê muita gente adulta no bairro, que estava lá também, ganhando bolo, suco e uma coroa de cartolina – talvez a única “coroa” que muitos de nós recebemos até hoje: tinha nosso nome escrito, a gente tinha nome na multidão de reis e rainhas, e nos emocionamos quando um amigo aceitou Jesus também.

Somos quem correu nos corredores e escadas, brincou de esconde-esconde enquanto os adultos faziam assembleia extraordinária. Participamos dos churrascos no pátio de igreja, somos testemunhas oculares das paredes que levantaram  e hoje são prédios que guardam parte do que fomos, do que somos . Éramos batizados com dez anos, porque aos sete era “cedo demais”. Nosso testemunho de vida perante a igreja, era inocente mais não menos coerente comparado ao de muita gente adulta, e quando o pastor nos jogou na água, sentimos algo de heroico:  ressurgir das águas era sair mais forte.

Tivemos as mais variadas formas de decorar versículos, faziam-se concursos: espada ao ar, lembra? Fizemos parte do coral infantil, do grupo de louvor, do teatro, fomos fieis aos mais diversos ministérios de nossas igrejas-casa . Frequentamos o colégio, passamos a adolescência e seus jogos de modinhas tentando conservar nossa identidade que antes parecia tão segura, mas na adolescência ela pareceu  tão atacada… Continuamos: foram muitos eventos, inúmeros acampamentos, criamos amigos que nos são irmãos até hoje, mesmo que o tempo nos tenha afastado.

Criamos um evangelho mais moderno, tentamos alcançar gente “jovem como a gente”, em determinado ápice, fomos consumidos pela fogueira de um acampamento, e a vontade de ir pra algum lugar distante fazer missão era certeza. Viramos a contra mão do nosso contexto, criamos guetos como um tipo de proteção. Nossa igreja-casa agora era um tipo de Jerusalém, cujo muro nos lembrou de que precisávamos ir além dele, talvez até colocar abaixo para que todos pudessem invadir nossa Jerusalém. Continuamos no grupo de louvor, nos aconselhamentos, fizemos discipulado de forma apaixonada  com outras pessoas, mas também barganhamos nossa boa fama com Deus, e muitas santidades que achamos ter, nos foram buracos cavados, nos quais nosso orgulho posteriormente nos faria cair.

Sim, fomos bons, fizemos o melhor possível, a sinceridade permeou boa parte de nossa vida cristã, mas não tínhamos maturidade para saber que ela pediria mais de nós, tão mais. A juventude nos pôs a prova, nos fez duvidar, nos brilhou reluzente e nos diferentes ambientes seculares que fomos obrigados a entrar, abrimos mão de algumas coisas, mudamos de opinião, ou não, resolvemos abandonar “tudo isso de crente”, ou não.  Perdemos e choramos por muitos dos que resolveram separar a igreja de casa, da vida, da mente, de si. Sim, nós os remanescentes os julgamos, até diria que invejamos seus desapegos e os denominamos “desviados”, mas nós os amamos também, tentamos chama-los novamente – alguns foram golpes duros que permanecem em nossa garganta, sem que nada nos faça engolir . Infelizmente, usamos a igreja e fomos usados por ela, nossa doce casa, na vida adulta virou um lugar de pertencimento, sem romantismos, mas não menos nossa.

Nossos testemunhos tendem a ser meio sem graça, nenhuma grande mudança da água para o vinho? Depende do que entendemos como amadurecer, criar convicções, escolher permanecer na fé da infância, mesmo que ela seja de certa forma diferente.

Temos muitas histórias, conhecemos muito da igreja, sabemos que chega uma hora em que ou fechamos os olhos e fingimos ser bonecos de plástico criados por alguma denominação, ou escolhemos crescer, bater de frente, deixar de beber o leite ou tentar fugir para o leite de outra espiritualidade nova, contextual, pós-moderna sei lá.

O fato é que nossa história de nascidos na igreja exige de nós um legado. Um legado específico de quem teve oportunidade de conhecer o reino cedo, mesmo que a realidade o tenha transformado em algo que exige de nós coragem, renuncia, mas é o nosso reino e o representando bem ou mal, temos a marca dele em nós. Nosso sangue possui as farpas de uma cruz, melhores de carregar que qualquer farpa que o mundo que nos rodeia venha a nos deixar. Nossas cicatrizes são doloridas também, sim, a vida também machucou muitos de nós com problemas familiares, financeiros, lutos, mentiras, intrigas e como boa família que somos, temos nossos cortes reservados apenas àqueles que se decepcionaram com a igreja-casa.

Nossa história é quase o retrato do povo escolhido, Israel, que tendo tudo, se deleita em algum momento com o deus alheio, e abandona o amor do que nos é íntimo desde sempre. Entendo os que desistiram, lamento, mas entendo: a gente acostuma com a graça, o sacrifício foi falado tantas vezes que cruz é só um símbolo, não temos nenhuma vida lixo da qual fugir, e por isso, ficamos definitivamente como “pinto no lixo” com as coisas que nos impediram de experimentar. Confesso, não fui também por uma virtude de covardia, tive medo da vida sem Deus, ainda tenho.

Mas o lado bom disso tudo é que nós podemos aprender a não nos julgar melhores. Porque afinal de contas, não somos o novo povo escolhido, somos mais um no meio de um grande povo que cresce todo dia com novos nascidos na fé, desde criança ou de vidas que nos ensinam o quanto a vida antiga foi ruim. Novas criaturas que resplandece em histórias de vida absurdas que nos fazem respirar fundo e repetir o quanto Deus é grande.

Sou grata a Deus pelos meus muitos anos de cristianismo, mas sempre me vejo constrangida por algum relato lindo de alguém que se deixou levar por esse amor absurdo, mesmo depois de uma vida sem o conhecimento dele. Os julgo corajosos, sei de mim, mas não sei se no lugar deles eu teria me rendido. Eles me levam a uma alegria estranha, um choro de maravilhamento junto ao sentimento de:” lamento, eu não faço ideia do quanto foi difícil para você”. Mas a paz define o encontro de súditos desse mesmo reino maravilhoso, que se constrói nos séculos com histórias tão diferentes num mesmo ideal, numa mesma fé que muda vidas de formas tão diferentes.

Talvez nós, os nascidos na igreja, tenhamos de aprender a desacostumar do cristianismo. Preciso diariamente com coragem e convicção escolher permanecer nessa fé, não porque meus pais me ensinaram, mas porque cresci e crescendo eu a tornei minha fé, minha experiência pessoal de vida, sou alma e corpo de um legado que outros me deixaram. Escolho a fé porque mesmo muitas vezes acostumando, desdenhando do seu potencial, ou questionando o quanto sentido ela faz, ela foi a única coisa que nunca me decepcionou. Essa fé me arrancou as lágrimas mais amargas da minha vida, me rasgou em gritos de socorro diante das respostas que não tive e ainda assim ela é a única cura, a única paz, a única certeza que eu continuo a ter. Meu Jesus é o mesmo doce amigo de sorriso grande, olhar pacifico e mão com marcas doídas  da minha infância, porque eu mudei, mas Ele não. A fé cristã continua sendo uma linda bolha, só que eu a vi com portas abertas para quem quiser entrar, e por ter portas abertas, sempre lá dentro entrará respingos de uma realidade cruel e triste do mundo a qual ela resolveu se instalar, mas ela não estoura, ela só cresce, ela quica leve sobre as opressões de um contexto duro.

Aos que foram, voltem. Não porque eu ou outro acha, porque algo ruim vai acontecer, essas coisas de gente que ainda toma leite, mas porque é seu lugar de pertencimento. Eu os vejo através de um grande vidro que tentei quebrar e os salvar a força, mas fui convidada a parar e olhar com calma: já não há escândalo da minha parte, porque agora eu vejo suas veias cheias desse sangue de farpas, ele continua lá… A maior certeza dessa minha vida é a de que o sangue do madeiro sempre ganha, é uma questão de dias para que vocês também ressurjam e juntos, sejamos os que mastigam os alimentos mais sólidos dessa fé que nos achou.


Escrito por Mirelli Turossi, publicado originalmente em Tempo Maduro.

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Luciana Petersen

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