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Os Supercrentes e a dúvida

Diga-me como crês em Deus que eu te direi quem és. É mais ou menos em cima dessa afirmação que certas formas de expressão política, litúrgica e social do movimento evangélico brasileiro podem ser entendidas. Ou quase entendidas.

A forma como se crê em Deus é mais do que a teologia de uma denominação, em muitos casos torna-se o próprio deus a ser seguido; e não é de duvidar que o triunfalismo, corrente que prega a invencibilidade travestida de espiritualidade, é um novo deus do evangelicalismo no país.

Com o triunfalismo, de alguma forma, mesmo com todas as evidências bíblicas contrárias, as pessoas julgam-se imbatíveis por serem filhas de Deus e não admitem derrotas ou fraqueza. Tal pensamento reverbera na forma de lidar com tensões que a vida oferece em todos os âmbitos e são nessas tensões que o questionar é sinônimo de pecado.

Quantas vezes não se ouve o conselho de não entrar em cursos superiores como Filosofia, por exemplo, porque, provavelmente, “você vai perder a fé”? Fé, no dicionário do triunfalista é sempre ter certeza, não admitir a dúvida. E dentro desse globo de certezas, a maior arma do supercrente é fugir de situações-limite para evitar a dúvida e não correr o risco de cair no patamar de espiritualidade.

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Nessa lógica, o espiritual é o que vence sempre, nunca se contradiz, nunca falha em seus argumentos… Um contraste gritante com grandes figuras da narrativa bíblica como Davi, em seus salmos de inconstância, desespero e dúvida; contraste ainda gritante com o profeta Elias, homem que viu Deus descer fogo sob um altar, mas tremeu e se escondeu em uma caverna por medo de seres humanos. Será que as marcas humanas da inconstância existencial e até de fé são marcas de “menos espiritualidade”?

O evangelho é dos pequeninos, como diria o mestre Jesus, é das pessoas que, como crianças se reconhecem como dependentes da graça de Deus para viverem mais um dia… Que reconhecem que precisam tanto de respostas quanto qualquer outro ser humano, se é que todas as respostas virão.

Somos gente: carne, osso e inconstância; a fé de verdade é a que, no lugar de afirmar vitórias e não admitir derrotas, treme os joelhos e fecha os olhos marejados ansiando por um socorro… que não vem de si.

O princípio da fé não é a certeza imbatível; é entender que confiar em si requer deixar de confiar nEle e, talvez, entendendo isso, ser um vencedor em todos os momentos não seja assim tão glorioso.

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Thaines Recila

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